Sentado em um sofá esperando, como sempre. Olho para a esquerda, sob a grande vidraça, presa na parede em um suporte de ferro, a televisão: pequena, antiga, acinzentada e com a imagem distorcida, a única coisa que se vê é que passa um filme de adolescente bobo, como aqueles que você adorava assistir na época de colégio.
É uma sala grande e espaçosa, com a porta de vidro entreaberta - pois "uma mola tá estragada e não pode fechar"- e dois sofás à direita de quem entra, onde ficam os clientes esperando o barbeiro, já cansado e um tanto quanto mau humorado, passar a navalha em um senhor de cabelos ralos e grisalhos, muito magro e quieto, mas sorridente.
O único som que se ouvia no momento era o da televisão e o do garoto excepcional sentado ao meu lado, que me observava com curiosidade, inquieto em seu lugar, ora olhando umas revistas, ora resmungando algumas palavras.
Eis que entra um senhor com uma sacola na mão contendo um engradado de cervejas; sorridente, aparentemente é um grande amigo do barbeiro, faz piadas, coisa de amigo de longa data. Se dirige de imediato à geladeira, que se encontrava na minha esquerda, e ali guarda sua bebida.
Senta-se na cadeira onde se lavam os cabelos dos clientes (existe nome específico para aquilo?) e conversa com o barbeiro sobre suas vidas em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, a qual, como muitas coisas, me foge à memória.
O senhor de cabelos grisalhos que era barbeado no momento se levanta, paga e sai caminhando de forma desajeitada, nota-se que possui algum tipo de problema mental, pois sorri muito e brinca com a pilastra que fica exatamente no meio da sala, até que sai do local e se esquece da porta defeituosa, que bate e faz barulho, quando de imetiado o barbeiro exclama "Eita!".
Chega a vez do garoto excepcional. Senta na cadeira, se move muito e vez ou outra chamava pela mãe (que não respondia, ficava apenas observando, ora lendo uma revista qualquer) ou, impaciente, perguntava "deu?" para o senhor que lhe passava a máquina nos cabelos.
Os senhores continuam a conversar:
"Mas rapaz! Tu te lembras de quando íamos pra cidade vizinha matar gado?"
"Ô, se lembro, tchê!"
E então prosseguiam, falando sobre algo que envolvia o Rio Uruguai, gado, açougues e um pouco de malandragem (coisa de filho da puta mesmo).
Eu estava confuso: não estava certo sobre fazer a barba.
Ora prestava atenção na conversa, ora na televisão, ora em mim mesmo ou então em outras pessoas, que nem ali estavam e nem poderiam estar.
O senhor vai até a geladeira e pega uma cerveja. Muito gentil, oferece a todos, que educadamente recusam, inclusive eu.
O garoto finalmente respira aliviado, sai da cadeira após o barbeiro lhe passar a escova para tirar os pelos remanescentes de sua nuca. Pega a escova da mesa e passa nas costas, agoniado. Prontamente vai embora com sua mãe, que permaneceu séria e calada todo o tempo.
Chega a vez de um rapaz moreno, de óculos, senta-se na cadeira, o senhor das cervejas continua a prosa, falando de como enganava a esposa para ir à festas quando jovem.
O barbeiro ri, ele ri, todos riem, é uma pessoa engraçada, mas eu continuava um tanto quanto alheio. Já tinha me decidido em fazer a barba.
Um garoto loiro, nesse meio tempo, aceitou uma cerveja oferecida pelo senhor (não Jesus, o outro), e ficava bebendo e sem participar muito da conversa, sendo que quando abria a boca, dizia apenas: "tá lôco" ou "nossa!". Rapaz tímido e sem bagagem para uma conversa de dois velhos. Não que minha situação fosse diferente, tanto é que permaneci calado, apenas rindo das histórias (ou estórias, impossível saber).
Confesso que só dou parte na conversa quando o assunto é de meu conhecimento, no caso o senhor do "suco de cevada", como ele mesmo disse, recomendou que o barbeiro arrumasse um "aparelho pra desbloquear os canais da tv". Bom, apenas falei das flores e de como florir o jardim, nada muito relevante.
O assunto volta para as festas e bebedeiras e mulheres bravas, para as estradas de chão, passa por futebol (surpreendentemente de forma breve, haja vista que ambos são gremistas) e acaba em trabalho.
O rapaz que tinha seu cabelo cortado em momento algum deu parte, apenas ria.
Ele sai, chega minha vez, vacilo. É, não havia me decidido de verdade, mas tudo bem.
Sento na cadeira e aos poucos finalmente vou vendo o meu rosto.
O senhor, já meio alto da bebida exclama: "Se eu instalar 100 ar condicionado num ano, fico rico! Não preciso mais trabalhar! Ganho R$ 50.000,00!!".
Fala sobre as marcas, sobre os preços, sobre tudo.
Então toca seu celular (o exclusivo pros clientes, pois o outro é para os conhecidos, como disse outrora).
A conversa é curta e se desenrola da seguinte maneira (levando-se em conta que, logicamente, ouvi apenas o que ele disse):
"Alô! Opa, fala aí querida!Hum...sim, aham...sei...Ah, claro! Mas não te preocupa, eu to inclusive atrás dessa hélice, agora mesmo. ... Claro, sim, ok, tchau!"
Todos dão risada, inclusive ele: "Ah, que se foda, usa o ventilador nesse final de semana, pô!", fala dando risada.
Silêncio novamente, abrem outra cerveja.
O barbeiro passa a lâmina, minha cara dói, como sempre, até que termina.
Percebi que eu estava alheio sempre, não consegui prestar inteira atenção aos acontecimentos, acho que é assim que acontece quando mando boas vibrações.
Foram horas incomuns, mas o bom mesmo foi antes.
Espero que isso sirva pra aliviar gastrite, ou ao menos aliviar o stress.
O que aprendi com essa história toda? Acho que nada além de saber como comprar um ar condicionado.

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