O momento pede:


    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    (...)

    Álvaro de Campos

Tá todo mundo triste e eu tô igual, na condição normal desde sempre e só fiquei sabendo agora.
Espero que não mudem pra pior.
Triste é conhecer a melhor pessoa que você nunca vai ter, e criar alteregos pra poder falar na terceira pessoa, afastando de si a responsabilidade de fazer alguma coisa a respeito.
Malditos tempos modernos.
Mais um ciclo, algumas epifanias e um caminho que surge de súbito juntamente com algumas descobertas importantes.
Também tem um pouco de saco cheio e um pouco de indiferença, mas que dão segurança e certeza, assim como algumas prioridades em detrimento do que antes parecia importante, mas que no final só acabou atrapalhando ou servindo como fracas e insuficientes válvulas de escape.
Ao menos apareceu uma ponta de otimismo pra dar aquela forcinha, mas sem deixar aquele bom e velho pessimismo de lado; aquele que não faz mal a ninguém, mas que, muito pelo contrário, é até saudável.
Só preciso de um pouco mais de disciplina, aí as coisas começam a caminhar.
E a gastrite voltou, descobri que as causas são o ócio, o stress e o desgosto. Principalmente o desgosto. Decepção e vontade de rasgar e virar algumas pessoas do avesso também ajudam, e tudo isso somado a muito tempo livre, que inevitavelmente me faz pensar na vida.

Saudade de quando pensar na vida era bom.
"preciso de um plano pra enterrar cada modalidade de desejo que eu não tive
porque a vida pode ser a versão demo grátis e dolorida

preciso de um plano
e alguma coisa dos meus olhos
se é que há

/*para me esquecer hoje eu não cruzei a rua
para onde vai essa memória eu lembro de onde vim*/

eu posso continuar crescendo amanhã
sob a mesma natureza apaixonada primogênita

(em si)

destreza ;
em função da aplicação dos parênteses

verdade sob luz fria
as cartas como gravuras
em jogos não meus"
(Lúcida - Matema)

Daqui, mas escuta >aqui<
Die welle fegte der Sonne; die Sonne wurde kalt; boa tarde; espera; mensagem; espera; esperança; boa tarde; resposta; eles; eu; dinheiro; tem que ter perfil; obrigado; adeus; mensagem; espera; calos; tênis; rua errada; bolso errado; abraço; água; sorriso; abraço; cartão; bolso errado; retorno; penitência; desistência; espera; faculdade; surpresa; ligação; terminal; espera; encontro; sorriso; engano; resolução; torcida; espera; espera; die kalte Sonne; pilar; sorriso; caminho; espera; fome; sorriso; espera; satisfação; sorriso; combina; caminha; espera; procura; caminha; encontra; combina; sorriso; espera; sorriso; der Mond; cai a ficha; faculdade; ático; vista; luz; espera; cansa de esperar; sorriso; combina; tudo combina; menos; muito menos do que lá; lugar errado; não pra mim; tão certo que é errado; sorriso; desce; aos poucos compreende; aos poucos se conforma; não entende; tchau; se conforma; pesa; pesa; aula; mudança; ...mas combina; surpresa; conversa; sorriso; uma pena que...; sempre tem um porém; sempre tem barreira; sempre é o bolso errado; sempre é errado; sempre deve ser; nunca é.
“Diz quanto é a passagem, e se o dinheiro não der vou voando, acho que eu queria. Já não sei se eu quero sentir tudo aquilo que eu sentia. Não quero, dessa vez eu vou ficar, dessa vez, não pergunte. Diz que não vai ficar brava, se eu disser que não vai dar pra dar certo, acho que eu nem queria. Não quero, dessa vez eu acho que é bem melhor, ficar, na gaiola.”


Escuta
Um verbo no passado nunca é bom sinal, traz no fundo um sentimento de fim, de perda.
E a nostalgia? Nostalgia é triste.
"For the Good Life is out there somewhere
So stay on my arm, you little charmer
But I know my luck too well
Yes, I know my luck too well
And I'll probably never see you again"

Só pra constar o dia em que consegui acabar com o meu preconceito contra os Smiths de vez, com uma letra bem apropriada pro momento.
"Que pena" pra isso, "que pena" praquilo; "ah se fosse diferente!".
A borboleta que bateu as asas lá no outro lado do mundo mandou um furacão pra cá que devastou tudo, e por ora não tem o que fazer.
Sem meios e ferramentas pra resolver os resolvíveis e os impossíveis (ou possíveis fora do limite da perversidade extrema) lamento e deixo pra trás.
O grande lance é descobrir se o labirinto tem saída antes de entrar.
Têm vezes que você quer esquecer todas as pessoas, porque descobre que não gosta de ninguém.

Burro pra caralho.

Estou há aproximadamente três horas me odiando por ter conseguido ignorar um adesivo amarelo gigantesco avisando para não plugar o maldito aparelho em uma tomada de 220v, sendo que toda vez que eu olhava para a merda do transformador, onde está colado o adesivo, pensava com meus botões "bom saber, sempre esqueço, quando for instalar esse scanner é só plugar no estabilizador e fica tudo certo". Ok, obviamente foi isso que eu fiz, certo? Errado, muito errado. Resultado? O negócio ligou, depois de um tempo desligou e não voltou a funcionar.
Onde se arruma atenção?
calafrio, exame, sangue, exame, oi, silêncio, preciso ir;
caminha caminha caminha, procura e acha, sorri e sai;
caminha caminha caminha, sua, água, sua, assoa, encontra;
refresca, silêncio, lê, não lê, tenta ler, mau-humor teu, mau humor-meu;
fome, arroz, frango, farofa, maracujá;
calafrio, inércia, dorme, acorda;
vontade sumiu, vontade de sumir, vontade de tudo menos disso aqui;
silêncio, raiva, frustração, mau-humor meu, tchau, mau-humor, oi;
silêncio, escuro, vazio, fica aí;
calafrio, fome, pão, margarina, uma ligação, uma surpresa, tchau, passo aí amanhã;
repetindo os passos; sem olhos pra ler, sem cabeça pra ler, tenho que ler, não li;
calafrio, esperando, esperando, silêncio, nenhum sinal, então tchau;
escuro, voltou a vontade de sair, sozinho não, voltou a vontade de ficar aqui;
fome, arroz, frango, farofa, maracujá;
entorpecer? ler? nem um nem outro; cala a boca, brincadeira, chá, calafrio, escuro;
não vou explicar.
Uma das piores coisas desse mundo é o sentimento de impotência. Ver alguém querido passando por maus bocados e não poder fazer absolutamente nada pra ajudar é de doer o peito.

Acabei de passar em frente a uma igreja evangélica. Nela o pastor gritava, as pessoas estavam com as mãos para cima e eu andava pesado suando sangue, querendo esmagar qualquer coisa.
Me bateu uma vontade repentina de adentrar o culto e me passar por uma pessoa com o diabo no couro, seria exatamente assim:
Entraria como quem não quer nada, apenas fitando o pastor de forma séria, sentaria em uma cadeira qualquer e esperaria. Do nada começaria a me debater e agir de forma completamente doente pra levantar a questão do capeta na alma.
Caso fosse bem sucedido, iria até a frente e aproveitaria a ocasião pra descontar toda a raiva no infeliz pastor e em quem tentasse intervir, eles não me bateriam.
Começaria com uma cabeçada no nariz, um gancho no queixo e, me debatendo, lhe acertaria um soco no estômago, só pra começar.
Quem viesse me segurar, eu tentaria de qualquer forma me soltar, já imaginei um chute nas partes baixas ou uma mão na orelha.
Pena que eu não teria coragem nem pra começar isso tudo, mas só de imaginar essa minha raiva toda dá uma aliviada enorme.
Tudo tem prazo de validade, as coisas acontecem rápido demais pro meu gosto.
Ou vai ver eu que sou um tanto quanto devagar.
Você já se sentiu triste ao voltar ao lugar de onde veio?
Pois é, esse é o único sentimento ruim que me acompanha depois desses dias.
Vai ver comprei os dias bons pagando com dias ruins e pelas minhas contas ainda estão me devendo.
E...sabe, vou pular fora de verdade.
Se eu chegar a viver a ponto de ter netos, vou contar pra eles como é triste passar um dia inteiro em um hospital, e avisar pra eles se cuidarem direitinho caso queiram que seus planos dêem certo.
salva de palmas, eu nem esperava.
só desgraça, só desgraça.
é a ordem que importa.
em que lugar você está? você vai vencer.
levantar ou estacionar. vacilo teu.
resolve aí, ou toca aqui.
saber, se ver, se colocar no lugar.
admitir, telefonar ou só escrever?
não digerir direito, ter que dirigir, ou suportar, pagar sem ver.
preguiça de cinema, prefere tv. tá em vhs, só tem dvd.
calcular, recontar, meio-brigar, ficar sem ver, ficar sem falar.
cumprimentar, dar oi, fingir não enxergar ou invesgar,
atender o celular. pra sair fora é só acenar.
mas mesmo assim prefiro pensar no melhor.
não sei se faz tão bem assim pra mim.
por mais que a gente esqueça uma hora se lembra.
mas mesmo assim prefiro pensar no melhor.
não sei se faz tão bem assim pra mim.
por mais que a gente esqueça uma hora se lembra.
soco na cara, eu sempre aguentava.
é só trapaça, só trapaça.
é a volta que me importa.
que parada que tá? onde tu vai descer?
tem que aprender, tem que agüentar.
aceita aqui não é tão ruim assim.
saber que ver não é só enxergar.
resistir, se adequar, saber receber.
não recordar direito, ter que fingir, e aguentar contar nos dedos.
revista, esquema, ou prefere me ver?
mandar um sedex ou esperar receber?
recear, recortar, meio-brigar.
ficar sem você. ficar a se deter, sem olhar.

Tava fácil demais!
Acho que vou desligar as máquinas, recolher as velas e ir remando, porque acabou o combustível e ficar esperando pelo vento certo é perda de tempo.
Sentado em um sofá esperando, como sempre. Olho para a esquerda, sob a grande vidraça, presa na parede em um suporte de ferro, a televisão: pequena, antiga, acinzentada e com a imagem distorcida, a única coisa que se vê é que passa um filme de adolescente bobo, como aqueles que você adorava assistir na época de colégio.
É uma sala grande e espaçosa, com a porta de vidro entreaberta - pois "uma mola tá estragada e não pode fechar"- e dois sofás à direita de quem entra, onde ficam os clientes esperando o barbeiro, já cansado e um tanto quanto mau humorado, passar a navalha em um senhor de cabelos ralos e grisalhos, muito magro e quieto, mas sorridente.
O único som que se ouvia no momento era o da televisão e o do garoto excepcional sentado ao meu lado, que me observava com curiosidade, inquieto em seu lugar, ora olhando umas revistas, ora resmungando algumas palavras.
Eis que entra um senhor com uma sacola na mão contendo um engradado de cervejas; sorridente, aparentemente é um grande amigo do barbeiro, faz piadas, coisa de amigo de longa data. Se dirige de imediato à geladeira, que se encontrava na minha esquerda, e ali guarda sua bebida.
Senta-se na cadeira onde se lavam os cabelos dos clientes (existe nome específico para aquilo?) e conversa com o barbeiro sobre suas vidas em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul, a qual, como muitas coisas, me foge à memória.
O senhor de cabelos grisalhos que era barbeado no momento se levanta, paga e sai caminhando de forma desajeitada, nota-se que possui algum tipo de problema mental, pois sorri muito e brinca com a pilastra que fica exatamente no meio da sala, até que sai do local e se esquece da porta defeituosa, que bate e faz barulho, quando de imetiado o barbeiro exclama "Eita!".
Chega a vez do garoto excepcional. Senta na cadeira, se move muito e vez ou outra chamava pela mãe (que não respondia, ficava apenas observando, ora lendo uma revista qualquer) ou, impaciente, perguntava "deu?" para o senhor que lhe passava a máquina nos cabelos.
Os senhores continuam a conversar:
"Mas rapaz! Tu te lembras de quando íamos pra cidade vizinha matar gado?"
"Ô, se lembro, tchê!"
E então prosseguiam, falando sobre algo que envolvia o Rio Uruguai, gado, açougues e um pouco de malandragem (coisa de filho da puta mesmo).
Eu estava confuso: não estava certo sobre fazer a barba.
Ora prestava atenção na conversa, ora na televisão, ora em mim mesmo ou então em outras pessoas, que nem ali estavam e nem poderiam estar.
O senhor vai até a geladeira e pega uma cerveja. Muito gentil, oferece a todos, que educadamente recusam, inclusive eu.
O garoto finalmente respira aliviado, sai da cadeira após o barbeiro lhe passar a escova para tirar os pelos remanescentes de sua nuca. Pega a escova da mesa e passa nas costas, agoniado. Prontamente vai embora com sua mãe, que permaneceu séria e calada todo o tempo.
Chega a vez de um rapaz moreno, de óculos, senta-se na cadeira, o senhor das cervejas continua a prosa, falando de como enganava a esposa para ir à festas quando jovem.
O barbeiro ri, ele ri, todos riem, é uma pessoa engraçada, mas eu continuava um tanto quanto alheio. Já tinha me decidido em fazer a barba.
Um garoto loiro, nesse meio tempo, aceitou uma cerveja oferecida pelo senhor (não Jesus, o outro), e ficava bebendo e sem participar muito da conversa, sendo que quando abria a boca, dizia apenas: "tá lôco" ou "nossa!". Rapaz tímido e sem bagagem para uma conversa de dois velhos. Não que minha situação fosse diferente, tanto é que permaneci calado, apenas rindo das histórias (ou estórias, impossível saber).
Confesso que só dou parte na conversa quando o assunto é de meu conhecimento, no caso o senhor do "suco de cevada", como ele mesmo disse, recomendou que o barbeiro arrumasse um "aparelho pra desbloquear os canais da tv". Bom, apenas falei das flores e de como florir o jardim, nada muito relevante.
O assunto volta para as festas e bebedeiras e mulheres bravas, para as estradas de chão, passa por futebol (surpreendentemente de forma breve, haja vista que ambos são gremistas) e acaba em trabalho.
O rapaz que tinha seu cabelo cortado em momento algum deu parte, apenas ria.
Ele sai, chega minha vez, vacilo. É, não havia me decidido de verdade, mas tudo bem.
Sento na cadeira e aos poucos finalmente vou vendo o meu rosto.
O senhor, já meio alto da bebida exclama: "Se eu instalar 100 ar condicionado num ano, fico rico! Não preciso mais trabalhar! Ganho R$ 50.000,00!!".
Fala sobre as marcas, sobre os preços, sobre tudo.
Então toca seu celular (o exclusivo pros clientes, pois o outro é para os conhecidos, como disse outrora).
A conversa é curta e se desenrola da seguinte maneira (levando-se em conta que, logicamente, ouvi apenas o que ele disse):
"Alô! Opa, fala aí querida!Hum...sim, aham...sei...Ah, claro! Mas não te preocupa, eu to inclusive atrás dessa hélice, agora mesmo. ... Claro, sim, ok, tchau!"
Todos dão risada, inclusive ele: "Ah, que se foda, usa o ventilador nesse final de semana, pô!", fala dando risada.
Silêncio novamente, abrem outra cerveja.
O barbeiro passa a lâmina, minha cara dói, como sempre, até que termina.
Percebi que eu estava alheio sempre, não consegui prestar inteira atenção aos acontecimentos, acho que é assim que acontece quando mando boas vibrações.
Foram horas incomuns, mas o bom mesmo foi antes.
Espero que isso sirva pra aliviar gastrite, ou ao menos aliviar o stress.
O que aprendi com essa história toda? Acho que nada além de saber como comprar um ar condicionado.
Crianças, nunca levem a sério os adultos que dizem que a vida tem que ser redondinha, bonitinha, limpinha e perfeitinha.
Chega a ser assustador como um ano em particular pode ter sido tão completamente fodido a ponto de, mesmo muito tempo depois, continuar produzindo efeitos novos e tão - ou mais - horríveis quanto o que os originou.
Me congelem em 2017, por favor.
Acho que eu nunca quis tanto ter um ataque cardíaco fulminante e cair duro, frio e morto de uma vez, como estou querendo agora.
Porque pra quem não tem coragem, só resta ficar sonhando mesmo.


Update: até bateu uma leve inveja do Godói agora.
Tudo é longe, mas pelo que percebo, pra chegar lá é necessário um esforcinho (e principalmente um pouco de coragem). Seria uma lição que as circunstâncias estão me empurrando goela abaixo?
Hoje o dia pareceu um episódio de início de temporada de seriado, e dos ruins.
Ainda bem que não assisto essas coisas.
Não sou disso, mas hoje fiquei quase certo de que tem uma entidade sobrenatural fanfarrona agindo sobre minha vida.



Update: é madrugada e o driver de cd abriu sozinho, confesso que levei um susto.
Começo de ano incomum e um pacote de coisas boas, que, como sempre, trazem algumas dores de cabeça.
Final de descanso -que foi muito proveitoso por sinal- e agora é só ficar esperto e se preparar pra agarrar as pedras no ar antes de tomar na testa e o sangue escorrer.

Porque se sangrar, fodeu. E pelo jeito vai rolar uma hemorragia aqui até o final dessa fase.




Acordei inexplicavelmente com a enorme e quase irresistível vontade de acertar uma voadora com dois pés em qualquer pessoa. Vai entender...
Obrigado, blog.
A vida é complicada: quando você já sabe como viver bem e lidar com a maior parte dos seus obstáculos, já se está velho demais pra isso.
O que me deixa meio confuso é saber até que ponto isso realmente é um problema, uma desculpa pra poder errar sem se sentir culpado ou um imbecil, ou então um motivo pra não se arrepender de nada.

Será que existe algum cheat code pra onisciência?
Procurando uma maneira de me acalmar, ou ao menos de relaxar um pouco, porque parece que ingeri cafeína diretamente na veia, o que não passa nem perto da verdade.
Desde ontem que esse nervosismo resolveu ficar e até pra dormir tá foda, então escrever isso talvez seja mais uma forma de tentar colocar algo pra fora, seja lá o que, pois não sei nem o motivo de ter ficado inquieto assim (nem minhas pernas, que não param quietas um segundo).
E estou apenas bem puto simplesmente pelo fato de que essa maldita coisa bizarra que me deu não me deixa dormir, tá pior que a febre da virada.
Quem me conhece sabe que tenho o sono pesado, mas é que odeio deitar sem ter certeza de que vou, com o ato, dormir imediatamente, pra não ficar divagando, pensando mil coisas, planejando o impossível, aquela besteirada toda que é comum quando se vai dormir. Bom, eu odeio isso, porque costumo acreditar muito em sonhos lúcidos e isso gera uma frustração enorme. Mas porra! Esse não era o ponto!
Enfim, não existe ponto, aqui nada precisa fazer sentido então tanto faz, vou ali ver se prego os olhos.


Atualização: fui na janela respirar um pouco e suspeito de que parte da culpa desse nervosismo pode ter vindo de um produto para matar insetos, pragas e bichinhos indesejáveis em geral. Acho que tá fazendo efeito em mim também.